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Friday, 13 March 2020

PROSA: MINHA PRIMEIRA MULHER

MINHA PRIMEIRA MULHER


9 de março; como estou de férias, decido trabalhar no Jardim,
pois a Primavera está chegando. Depois estendo a roupa
que estava na máquina. Lavo a louça de ontem à noite e hoje
cedo. Esquento algo de comer. Lavo a louça outra vez. Daí
pego o aspirador, e aspiro nossa casa.

Parece muito?
Mas você sabe que não é nada. Eu sei que não é nada.
Eu que cresci para ser um homem de muitas faltas e falhas;
mas uma certeza, nasci de uma mulher única - como tantas -
neste planeta.

Você é aquela que me ensinaria a resiliência conquistadora
da rotina, e as fragrâncias escondidas nos momentos e coisas
mais simples da Vida.

O que fiz hoje; você fez, faz e faria durante toda a sua vida.
E mais, muito mais...

Um dia sim e outro também; sem domingo, sem feriado, sem
férias; limpar a casa, lavar a louça, lavar a roupa, cozinhar
para filhos e marido, trabalhar para fora; e mesmo assim
eu não consigo me lembrar de você senão sorrindo.

Mesmo com todas as tarefas de casa, os trabalhos para fora,
o marido exigindo isso e aquilo, os filhos reclamando disto
e daquilo; nunca houve Primavera em que o seu jardim não
estivesse florindo.

Sei que você dirá "Mas isto não é nada!"; e responderá,
tão somente:

"Ter fé! É preciso ter fé, meu filho."

E é esta mesma fé que me mantém seguindo; e mais
do que isto, me mantém sorrindo e plantando jardins,
e me alegrando com ter uma louça para lavar, uma casa
para limpar, e água para poder limpá-las: louça e casa e chão
e mãos e jardim.

Às vezes, mãe, eu me pergunto, se eu tenho o direito
de ser feliz e de sorrir. Se eu tenho o direito de amar jardins;
quando há tanto sofrimento entre nós; tanta maldade contra
os mares, contra os animais, contra a própria humanidade?

Sabe, eu tenho dúvidas sobre a minha felicidade; se ela é
honesta e legítima.

E é quando, novamente, na minha memória encontro
o seu sorriso e a sua alegria de viver. Para ser sincero,
não apenas o seu, tão humilde e luminoso, sorriso; mas
também o sorriso e a alegria de tantas outras Marias.

Marias que sendo mães como você, minha mãe, lá estavam;
vivendo situações muito piores que a nossa; e no entanto,
diariamente lutavam, suavam e, principalmente, viviam
sorrindo entusiasmadas contra a dor.

Foi com vocês mãe, que eu aprendi que não basta ter fé
se não for com alegria; que não basta lutar se não for com
o sorriso no rosto. Pois Você me ensinou, não há felicidade
sem fé e coragem; pois assim como a liberdade, a felicidade
não é um direito, mas uma conquista a ser reconquistada
permanentemente, diariamente e sempre.

Felicidade ou Liberdade são conquistas diárias; e qualquer
que entenda, já possui-las como um direito já conquistado,
já começa a perdê-las. Pois, como você mãe, e tantas outras
mulheres - e alguns poucos homens - sabem, Liberdade
e Felicidade, muito mais que direitos, são deveres.

Deveres no sentido prático: "devemos" tomar água
se queremos ter saúde e acabar com a sede; devemos
não sair na chuva se não queremos nos molhar; devemos
sorrir se buscamos ser felizes. E neste dever que encontro
o prazer de sorrir pela conquista da felicidade que há e
somos quando sonhamos, lutamos acreditamos e vivemos
pelo o que amamos.

Definitivamente, eu sou um homem de milhões de erros e um
acerto
ser filho da minha mãe.


***
**
*


Para todas as mães destes filhos e filhas.
Vivam uma existência fantástica
Abraços carinhosos
TAT



LEITURAS EM BUSCA DE LEITORES: QUASE TODAS AS NOITES (2016) SIMONE BRANTES

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