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Tuesday, 13 October 2020

LEITURAS EM BUSCA DE LEITORES: QUASE TODAS AS NOITES (2016) SIMONE BRANTES


LEITURAS EM BUSCA DE LEITORES


 

Meu nome é TAT (Thiago) https://www.facebook.com/TATpoesia/ https://twitter.com/tat_poesia?s=09
Sou tradutor e um dos criadores do projeto TO BE TUPI de tradução bilingue PORT-ENGL & ENGL-PORT na revista brasileira contemporânea Mallarmargens. Nestes vídeos, estarei compartilhando com vocês, de forma honesta e apaixonada, minhas leituras de livros de poesia de língua portuguesa contemporânea. Estas são somente minhas observações e sentimentos ou sensações, assim como ideias. Não tenho nenhuma ambição de fazer uma leitura completa e definitiva de nenhum livro ou poema, com suas qualidades e defeitos. Espero que curtam e se curtirem, não esqueçam de nos seguir e compartilhar. Simone Brantes QUASE TODAS AS NOITES 2016/ Editora 7Letras www.7letras.com.br Abraços carinhosos e obrigado. Vivam uma existência fantástica!

Monday, 12 October 2020

7 Poemas Traduzidos ao Português da Poeta Luis Glück

 



Louise Glück nasceu na cidade de Nova York em 1943 e cresceu em Long Island. Ela frequentou o Sarah Lawrence College e a Columbia University. Considerada por muitos como um dos poetas contemporâneos mais talentosos da América, Glück é conhecida por sua precisão técnica, sensibilidade e percepção da solidão, relações familiares, divórcio e morte. O poeta Robert Hass a chamou de “uma das poetas líricas mais puras e talentosas”. Em 2020 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura "por sua inconfundível voz poética que com austera beleza torna universal a existência individual".

Nota do tradutor: como além de poeta, ela é uma amante da jardinagem (The Garden e The Wild Iris, exemplos de títulos de seus livros), todos os poemas que escolhi dialogam de uma forma ou outra com o mundo das flores e jardins. Outra paixão, junto com a poesia, da qual compartilhamos.


THE RED POPPY

The great thing

is not having

a mind. Feelings:

oh, I have those; they

govern me. I have

a lord in heaven

called the sun, and open

for him, showing him

the fire of my own heart, fire

like his presence.

What could such glory be

if not a heart? Oh my brothers and sisters,

were you like me once, long ago,

before you were human? Did you

permit yourselves

to open once, who would never

open again? Because in truth

I am speaking now

the way you do. I speak

because I am shattered.

A PAPOULA VERMELHA

A melhor coisa

não é ter

uma mente. Sentimentos:

oh, eu tenho aqueles; eles

me governam. Eu tenho

um senhor no céu

chamado o sol, e aberta

para ele, lhe mostro

o fogo do meu próprio coração, fogueira

como sua presença.

O que poderia tal glória ser

se não um coração? Oh meus irmãos e irmãs,

você foi como eu alguma vez , há muito,

antes de você ser humano? Você

permitiu-se

se abrir uma vez, quem nunca

se abriria novamente? Porque na verdade

eu estou falando agora

do jeito que você faz. Eu falo

porque eu estou despedaçada.

Do livro The Wild Iris (1992)




**

NOSTOS

There was an apple tree in the yard —

this would have been

forty years ago — behind,

only meadows. Drifts

of crocus in the damp grass.

I stood at that window:

late April. Spring

flowers in the neighbor’s yard.

How many times, really, did the tree

flower on my birthday,

the exact day, not

before, not after? Substitution

of the immutable

for the shifting, the evolving.

Substitution of the image

for relentless earth. What

do I know of this place,

the role of the tree for decades

taken by a bonsai, voices

rising from the tennis courts —

Fields. Smell of the tall grass, new cut.

As one expects of a lyric poet.

We look at the world once, in childhood.

The rest is memory.

NOSTOS*

Havia uma macieira no quintal -

isso teria sido

há quarenta anos - detrás,

apenas prados. Derivações

de crocus pela grama úmida.

Fiquei de pé àquela janela:

final de abril. Primavera

flores no quintal vizinho.

Quantas vezes, realmente, a árvore

floriu no meu aniversário,

no dia exato, não

antes, não depois? Substituição

do imutável

para o incostante, a evolução.

Substituição da imagem

pela implacável terra. O que

eu sei sobre este lugar,

o papel da árvore por décadas

tomada por um bonsai, vozes

surgindo das quadras de tênis -

Campos. Cheiro de grama alta, corte novo.

Como se espera de um poeta lírico.

Olhamos para o mundo uma vez, na infância.

O resto é memória.

*Mantive o nome original do poema NOSTOS, que vindo do grego deu origem ao nosso Nostalgia. NOSTOS no grego clássico, era usado para definir a literatura que conta a jornada épica do retorno do herói à casa.

Do livro Meadowlands (1996)

**



"Antes do livro The Wild Iris, passei dois anos só escutando Dom Giovanni de Mozart e lendo, literalmente, somente catálogos de flores, sem parar. Eu estava completamente apaixonada por jardinagem mas não conseguia escrever nada; assim, por dois anos e meio. Então um dia, caminhando pelo jardim, arrancando algumas ervas daninhas, de repente pensei 'Por que não tenta escrever um poema recitado por uma flor?' E em dois dias, sabia como seria o livro inteiro."

Louise Glück

The Wild Iris, ainda é considerado um dos seus mais "ambiciosos e originais" livros. Venceria o Pulitzer e o Poetry Society of America Award.

**

MATINS (Not the sun merely)

You want to know how I spend my time?

I walk the front lawn, pretending

to be weeding. You ought to know

I'm never weeding, on my knees, pulling

clumps of clover from the flower beds: in fact

I'm looking for courage, for some evidence

my life will change, though

it takes forever, checking

each clump for the symbolic

leaf, and soon the summer is ending, already

the leaves turning, always the sick trees

going first, the dying turning

brilliant yellow, while a few dark birds perform

their curfew of music. You want to see my hands?

As empty now as at the first note.

Or was the point always

to continue without a sign?

MATINAS (não somente o sol)

Você quer saber como eu gasto meu tempo?

Eu ando pelo gramado da frente, fingindo

remover ervas daninhas. Você deve saber

nunca arranco ervas, de joelhos, puxando

tufos de trevo dos canteiros de flores: na verdade

busco é pela coragem, por alguma evidência

minha vida vai mudar, embora

leve uma eternidade, verificar

cada moita pela folha

simbólica, e logo o verão estará terminando, já

tornando as folhas, as árvores doentes sempre

indo primeiro, a morte tornando-se

amarelo brilhante, enquanto alguns pássaros escuros executam

seu toque de recolher musical. Você quer ver minhas mãos?

Tão vazias agora quanto na primeira nota.

Ou foi sempre a intenção

continuar sem um sinal?

Do livro The Wild Iris (1992)

**

THE WILD IRIS

At the end of my suffering

there was a door.

Hear me out: that which you call death

I remember.

Overhead, noises, branches of the pine shifting.

Then nothing. The weak sun

flickered over the dry surface.

It is terrible to survive

as consciousness

buried in the dark earth.

Then it was over: that which you fear, being

a soul and unable

to speak, ending abruptly, the stiff earth

bending a little. And what I took to be

birds darting in low shrubs.

You who do not remember

passage from the other world

I tell you I could speak again: whatever

returns from oblivion returns

to find a voice:

from the center of my life came

a great fountain, deep blue

shadows on azure seawater.

A IRIS SELVAGEM

No final do meu sofrimento

havia uma porta.

Ouça-me: aquilo que você chama de morte

Eu me lembro.

Por cima, ruídos, ramos de pinheiro se mexendo.

E já nada. O sol fraco

cintilava sobre a superfície seca.

É terrível sobreviver

como consciência

enterrada na terra escura.

Então tudo acabado: aquilo que você teme, sendo

uma alma e incapaz

de falar, terminando abruptamente, a terra dura

se curvando um pouco. E o que eu pensei ser

pássaros rápidos em arbustos baixos.

Você que não se lembra

passagem dês do outro mundo

Eu lhe digo eu poderia falar outra vez: tudo que

retorna do oblívio retorna

para encontrar uma voz:

do centro da minha vida veio

uma grande fonte, profundas sombras

azuis sobre águas de mar celeste.

Do livro The Wild Iris (1992)

**

SNOWDROPS

Do you know what I was, how I lived? You know

what despair is; then

winter should have meaning for you.


I did not expect to survive,

earth suppressing me. I didn't expect

to waken again, to feel

in damp earth my body

able to respond again, remembering

after so long how to open again

in the cold light

of earliest spring--

afraid, yes, but among you again

crying yes risk joy

in the raw wind of the new world.

GOTAS DE NEVE

Você sabe o que eu era, como eu vivi? Você sabe

o que é desespero; então

o inverno deve ter significado para você.

Eu não esperava sobreviver,

a terra me suprimindo. Eu não esperava

acordar de novo, sentir

na terra úmida meu corpo

capaz de responder novamente, lembrando

depois de tanto tempo como abrir novamente

na luz fria

da primavera começando -

medo, sim, mas entre vocês outra vez

chorando sim alegria risco

no vento bruto do novo mundo.

Do livro The Wild Iris (1992)

**



THE GARDEN

I couldn’t do it again,

I can hardly bear to look at it—

in the garden, in light rain

the young couple planting

a row of peas, as though

no one has ever done this before,

the great difficulties have never as yet

been faced and solved—

They cannot see themselves,

in fresh dirt, starting up

without perspective,

the hills behind them pale green,

clouded with flowers—

She wants to stop;

he wants to get to the end,

to stay with the thing—

Look at her, touching his cheek

to make a truce, her fingers

cool with spring rain;

in thin grass, bursts of purple crocus—

even here, even at the beginning of love,

her hand leaving his face makes

an image of departure

and they think

they are free to overlook

this sadness.

O JARDIM

Eu não poderia fazer isso de novo,

Eu mal aguento olhar para isso -

no jardim, na chuva fraca

o jovem casal plantando

uma fileira de ervilhas, como se

ninguém nunca fez isso antes,

as grandes dificuldades ainda nunca

tenham sido enfrentadas e resolvidas -

Eles não podem se ver,

na sujeira fresca, começando

sem perspectiva,

as colinas detrás deles verde pálido,

nubladas com flores -

Ela quer parar;

ele quer chegar ao fim,

para ficar com a coisa—

Olhem para ela, tocando sua bochecha

para fazer uma trégua, seus dedos

frescos com a chuva de primavera;

na grama fina, rajadas de crocus roxo -

mesmo aqui, mesmo no início do amor,

a mão dela deixando o seu rosto faz

uma imagem de partida

e eles pensam

eles são livres para ignorar

essa tristeza.

Do livro The Wild Iris (1992)

**

THE GARDEN

The garden admires you.

For your sake it smears itself with green pigment,

The ecstatic reds of the roses,

So that you will come to it with your lovers.


And the willows--

See how it has shaped these green

Tents of silence. Yet

There is still something you need,

Your body so soft, so alive, among the stone animals.


Admit that it is terrible to be like them,

Beyond harm.

**

O JARDIM


O jardim lhe admira.

Para o seu bem ele se borra com pigmento verde,

Os vermelhos extasiados das rosas,

Para que você venha com os seus amores.


E os salgueiros -

Veja como moldaram esses verdes

Tendas de silêncio. Mesmo

Assim há algo que você ainda precisa,

Seu corpo tão macio, tão vivo, entre os animais de pedra.


Admita que é terrível ser como eles,

Para além da ofensa.





**

Todos os poemas traduzidos por TAT







Saturday, 25 July 2020

PROSA: CASA

CASA




Só vejo o que não vejo 
e o que não sei se existe 

Cecília Meireles




Diante do invisível que é e sendo está, resta-me
concentrar-me ainda mais no visível. Nas paredes que se erguem. 
Nas histórias não contadas de pedreiros invisíveis; mas lá estão, 
entre os tijolos no meio do cimento debaixo da pintura 
envolvendo os pregos que furam as paredes e sustentam retratos,
espelhos, prateleiras cheias de livros, panelas e santos. Quanto 
cansaço invisível, quanto suor invisível, quantas mãos que perduram 
movendo-se imperceptíveis em redor do núcleo do meu isolamento; 
minha própria invisibilidade diante das paredes que nada dizem 
mas fazem, assim, o eu, emparedado entre o que vejo visível e o que vejo 
invisível; o que sinto e sinto que não sinto, e o que sei não saber e o que 
não sei que sei. Como todos estes canos, estas tomadas, estes fios, estas 
telhas, estas torneiras, estes ralos destapados e fundos levando os invisíveis
 sonhos e medos e piadas e discussões e almoços e fomes passadas 
durante a construção disto que seria o meu isolamento e proteção 
contra o mal, contra a chuva, contra o sol, contra o invisível mundo
dos outros e outras, com ou sem, os seus isolamentos. Caminho 
pelos espaços vazios entre uma e outra parede, tocando de longe
as suas histórias invisíveis, que juntam-se através de portas para fazerem 
os cômodos, para juntarem os cômodos, enchendo-os de significados e 
uma maneira particular de estar na sala como não se está no quarto, 
no quarto como não se está na cozinha, na cozinha como não se está 
no banheiro, no banheiro de porta fechada como não se está de porta aberta. 
Sento, olho, ouço e a casa me isola para dentro de suas arestas, frestas, partes 
esquecidas, como esta, esta minha pequena cicatriz, que hoje redescubro 
como se fosse me revelado o próprio braço. Passo da sala para o quarto
do quarto para a cozinha da cozinha para o banheiro e vou observando 
cada detalhe é o meu isolamento não visto até este mesmíssimo momento 
em que, invisível fez-se visível como se faz invisível o visível chão onde piso, 
o ar que respiro, a morte que vivo. Devagar, mas sem volta, reconheço na pele 
a invisibilidade de tudo quanto me toca; de tudo que tocou meu invisível
interior, visível dentro para fora, e que nunca me abandonou feito cimento entre 
tijolos das paredes que misturam vidas e concretude em um mesmo silêncio 
erguido e sustentado pelo ruído que revela toda e quanta cor escolhida para pintar
 a superfície de uma realidade visivelmente incolor. Paro e giro sobre o meu corpo 
as paredes giram sobre o meu corpo giramos todos nós que somos esta casa erguida 
sob os cadáveres de ratos e baratas e insetos e minhocas e delírios e segredos 
químicas substâncias usadas para limpar, curar, apagar, desintegrar corpos
visivelmente invisíveis ecos deixados no interior isolado de nossos corpos
habitados pela nossa particular maneira de morar conosco.


**
Vivam uma existência fantástica
TAT
@tat_poesia
#tat_poesia 



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