Saturday, 25 July 2020

PROSA: CASA

CASA




Só vejo o que não vejo 
e o que não sei se existe 

Cecília Meireles




Diante do invisível que é e sendo está, resta-me
concentrar-me ainda mais no visível. Nas paredes que se erguem. 
Nas histórias não contadas de pedreiros invisíveis; mas lá estão, 
entre os tijolos no meio do cimento debaixo da pintura 
envolvendo os pregos que furam as paredes e sustentam retratos,
espelhos, prateleiras cheias de livros, panelas e santos. Quanto 
cansaço invisível, quanto suor invisível, quantas mãos que perduram 
movendo-se imperceptíveis em redor do núcleo do meu isolamento; 
minha própria invisibilidade diante das paredes que nada dizem 
mas fazem, assim, o eu, emparedado entre o que vejo visível e o que vejo 
invisível; o que sinto e sinto que não sinto, e o que sei não saber e o que 
não sei que sei. Como todos estes canos, estas tomadas, estes fios, estas 
telhas, estas torneiras, estes ralos destapados e fundos levando os invisíveis
 sonhos e medos e piadas e discussões e almoços e fomes passadas 
durante a construção disto que seria o meu isolamento e proteção 
contra o mal, contra a chuva, contra o sol, contra o invisível mundo
dos outros e outras, com ou sem, os seus isolamentos. Caminho 
pelos espaços vazios entre uma e outra parede, tocando de longe
as suas histórias invisíveis, que juntam-se através de portas para fazerem 
os cômodos, para juntarem os cômodos, enchendo-os de significados e 
uma maneira particular de estar na sala como não se está no quarto, 
no quarto como não se está na cozinha, na cozinha como não se está 
no banheiro, no banheiro de porta fechada como não se está de porta aberta. 
Sento, olho, ouço e a casa me isola para dentro de suas arestas, frestas, partes 
esquecidas, como esta, esta minha pequena cicatriz, que hoje redescubro 
como se fosse me revelado o próprio braço. Passo da sala para o quarto
do quarto para a cozinha da cozinha para o banheiro e vou observando 
cada detalhe é o meu isolamento não visto até este mesmíssimo momento 
em que, invisível fez-se visível como se faz invisível o visível chão onde piso, 
o ar que respiro, a morte que vivo. Devagar, mas sem volta, reconheço na pele 
a invisibilidade de tudo quanto me toca; de tudo que tocou meu invisível
interior, visível dentro para fora, e que nunca me abandonou feito cimento entre 
tijolos das paredes que misturam vidas e concretude em um mesmo silêncio 
erguido e sustentado pelo ruído que revela toda e quanta cor escolhida para pintar
 a superfície de uma realidade visivelmente incolor. Paro e giro sobre o meu corpo 
as paredes giram sobre o meu corpo giramos todos nós que somos esta casa erguida 
sob os cadáveres de ratos e baratas e insetos e minhocas e delírios e segredos 
químicas substâncias usadas para limpar, curar, apagar, desintegrar corpos
visivelmente invisíveis ecos deixados no interior isolado de nossos corpos
habitados pela nossa particular maneira de morar conosco.


**
Vivam uma existência fantástica
TAT
@tat_poesia
#tat_poesia 



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