CASA
Só vejo o que não vejo
e o que não sei se existe
Cecília Meireles
Diante do invisível que
é e sendo está, resta-me
concentrar-me ainda mais
no visível. Nas paredes que se erguem.
Nas
histórias não contadas de pedreiros invisíveis;
mas lá estão,
entre os tijolos no meio do cimento debaixo
da pintura
envolvendo os pregos que furam as
paredes e sustentam retratos,
espelhos, prateleiras
cheias de livros, panelas e santos. Quanto
cansaço invisível,
quanto suor invisível, quantas mãos que perduram
movendo-se imperceptíveis em redor do núcleo do meu isolamento;
minha própria invisibilidade diante das paredes que
nada dizem
mas fazem, assim, o eu, emparedado entre o que
vejo visível e o que vejo
invisível; o que sinto e sinto que
não sinto, e o que sei não saber e o que
não sei que sei. Como
todos estes canos, estas tomadas, estes fios, estas
telhas,
estas torneiras, estes ralos destapados e fundos levando os
invisíveis
sonhos e medos e piadas e discussões e almoços e
fomes passadas
durante a construção disto que seria o meu
isolamento e proteção
contra o mal, contra a chuva, contra o
sol, contra o invisível mundo
dos outros e outras, com
ou sem, os seus isolamentos. Caminho
pelos espaços
vazios entre uma e outra parede, tocando de longe
as suas
histórias invisíveis, que juntam-se através de portas para
fazerem
os cômodos, para juntarem os cômodos, enchendo-os
de significados e
uma maneira particular de estar na
sala como não se está no quarto,
no quarto como não se está
na cozinha, na cozinha como não se está
no banheiro, no
banheiro de porta fechada como não se está de porta aberta.
Sento, olho, ouço e a casa me isola para dentro de suas
arestas, frestas, partes
esquecidas, como esta, esta minha pequena
cicatriz, que hoje redescubro
como se fosse me revelado o
próprio braço. Passo da sala para o quarto
do quarto para a cozinha
da cozinha para o banheiro e vou observando
cada detalhe é
o meu isolamento não visto até este mesmíssimo momento
em
que, invisível fez-se visível como se faz invisível o visível
chão onde piso,
o ar que respiro, a morte que vivo. Devagar, mas sem
volta, reconheço na pele
a invisibilidade de tudo quanto me
toca; de tudo que tocou meu invisível
interior, visível dentro
para fora, e que nunca me abandonou feito cimento entre
tijolos das
paredes que misturam vidas e concretude em um mesmo silêncio
erguido e sustentado pelo ruído que revela toda e quanta cor
escolhida para pintar
a superfície de uma realidade visivelmente incolor. Paro
e giro sobre o meu corpo
as paredes giram sobre o meu corpo giramos
todos nós que somos esta casa erguida
sob os cadáveres de ratos e
baratas e insetos e minhocas e delírios e segredos e
químicas substâncias
usadas para limpar, curar, apagar, desintegrar corpos
visivelmente invisíveis
ecos deixados no interior isolado de nossos corpos
habitados pela nossa
particular maneira de morar conosco.
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Vivam uma existência fantástica
TAT
@tat_poesia
#tat_poesia
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